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22 de Outubro de 2018

A Caixa de Pandora Brasileira

Um Golpe de Estado silencioso e em curso há 30 anos no Brasil

Eduardo Terovydes Junior, Contador
há 10 meses

"Convém que o povo não perceba o sistema bancário e monetário, pois se percebesse acredito que haveria uma revolução antes de amanhã de manhã "

Henry Ford – 1922.

A campanha oficial do governo e do Partido Político que hoje comanda o Poder Executivo Federal, divulgada maciçamente em mídia impressa e eletrônica, não só na forma de campanha publicitária mas também mascarada através de “sugestões” na pauta dos principais telejornais (convido meus leitores observar quem está anunciando no intervalo comercial), visa atender a um dos principais pleitos do mercado financeiro.

"Mercado" este que de forma camuflada comanda efetivamente o Governo Federal, e tem por objetivo desmontar a médio e longo prazo qualquer iniciativa de retomada do desenvolvimento econômico do País, ao menos de forma sustentável e por longo período, transformando o País em uma economia de subsistência.

Invariavelmente temos políticas monetárias retrógradas e que nos levarão a temas como: subdesenvolvimento, alta concentração de renda, investimentos estatais insuficientes em setores como saúde, habitação e educação, porém assegurando a saúde financeira das contas da União para o cumprimento adimplente do pagamento de uma das mais altas remunerações pelo serviço da dívida interna do governo federal junto as instituições financeiras (R$1,75 trilhões/anuais) e não, como alegado em sua campanha falaciosa, ou seja, para assegurar o pagamento a grande maioria dos "humilhados e maltratados" aposentados e pensionistas ou ainda para investimentos em saúde e educação (vide PEC 241, já aprovada no Congresso e que congelou os investimentos nestas áreas por longos 20 anos, ignorando o potencial do crescimento vegetativo de uma jovem população do País; deixando livre, sem limites, tetos ou restrições, os gastos do Governo Federal com juros pagos aos bancos por conta do serviço da dívida interna).

Hoje o serviço da dívida interna, é a zona de conforto dos maus acostumados banqueiros brasileiros que preferem emprestar ao Governo Federal (Porto Seguro) em detrimento ao fomento da produção e consumo, por aversão ao risco inerente na operação de crédito nesta modalidade (optam pela Zona de conforto proporcionada com a compra de Títulos do Tesouro Nacional) títulos estes remunerados a insustentáveis 14.25% ao ano, afinal os títulos foram vendidos aos bancos, lá atrás na condição pré-fixado quando a SELIC estava nas nuvens, e engana-se aquele que acredita que com a queda da SELIC, hoje em 7% a.a., está aliviando as contas do Governo Federal no oneroso pagamento dos pesados juros aos bancos; pelo contrário o "spread bancário", que é o lucro real entre a captação e retorno pago, aumentou substancialmente desde que o COPOM (Comitê de Política Econômica, integrada por executivos do "Mercado") optou pela redução gradativa e mensal da SELIC.

Juros estão baixando: lamento informar, mas é mais um mentira deslavada que o Governo Federal que tenta emplacar na sociedade através da colocação de publicidade do governo paga em todos os principais telejornais da mídia aberta no País (em tempo: carentes por verbas publicitárias para sua própria sobrevivência).

Acompanhe o raciocínio, se a inflação é a mais baixa em 19 anos, e a Selic caiu a níveis de 4 anos atrás, ora bolas, que conclusão maluca é essa, baseada apenas nas taxas de juros nominais? (SELIC era de 14,25% a.a. e agora 7% a.a.)

Veja: de janeiro a setembro do ano passado, a inflação foi de 7,15%, e a média da Selic, de 10,44%, portanto temos um juro real de 3%.

De janeiro a setembro de 2017, temos uma inflação de 1,42% e uma Selic, também acumulada nos primeiros nove meses do ano, de 8%. Juro real: 6,5%.

Resumindo: Juros reais (e não nominais) subiram de 3% ao ano para 6,5% ao ano. Se duvidar? Recomendo perguntar a um economista, ele certamente irá ratificar o que estou falando.

Isto é insustentável!

Em qualquer País sério, a equipe econômica já estaria atrás das grades pela prática do crime de agiotagem dentro do Governo Federal.

Meus Deus, legalizaram a agiotagem, o crime da Usura no próprio Governo Federal!

Há uma relação promíscua entre o Governo Federal e o dito "mercado" que privatiza lucros e socializa prejuízos.

O setor financeiro é contemplado há pelo menos 30 anos no País em detrimento do setor da produção, independente de qual Partido Político que esteja no comando (PSDB, PT, PMDB, etc), que reitero são meros executivos do dito "mercado", que é o mandatário absoluto da política monetária do País desde o fim da ditadura em 1984.

Simultaneamente a nossa indústria foi paulatinamente sucateada nestes 30 anos, exportamos senão produtos agropecuários, que é o único setor que ainda mantém nosso crescimento econômico, pois se dependêssemos apenas da indústria, comércio e prestadores de serviços para calcular o PIB ainda estaríamos na recessão, para não dizer em uma grave depressão econômica, insumos ou matéria prima para o exterior.

Saiba que os principais produtos que exportamos são:

- Minério de ferro, aço e ferro fundido: 16,3%

- Petróleo Bruto: 8,4%

- Soja e produtos derivados: 6,4%

- Açúcar de cana: 4,5%

- Café em grão: 3,1%

- Carne de frango (in natura): 2,8%

- Farelo e resíduos da extração do óleo de soja: 2,2%

- Pastas químicas de madeira: 1,9%

e importamos esta mesma matéria prima, porém na forma de produtos acabados e com o valor agregado.

O lucro? Lógico, fica lá fora! Pode até voltar parte deste lucro, mas na forma de capital especulativo, atraído pelos pornográficos juros pagos pelo governo brasileiro para financiamento de sua máquina através dos títulos da dívida pública com a finalidade de financiar sua pesada, onerosa e incompetente máquina.

Este nocivo capital especulativo, vem e vai embora rapidamente, sem qualquer compromisso com os interesses do País (infelizmente adotamos o pensamento neoliberal) e a qualquer suspeita de "piriri" no Governo Federal, retorna ao País de origem remunerados a taxas de juros proibitivas.

Este capital especulativo não gera empregos, não gera renda, não contribui em nada para o País, apenas retira o pouco que nos resta.

Um dos maiores compradores de nosso minério de ferro é a China, que já está fazendo sua lição de casa, comprando extensas áreas territoriais no continente africano, pois pretende buscar sua matéria prima de um local mais próximo de seu País, diminuindo substancialmente o custo do frete.

Hoje a China é o maior comprador de setores da indústria de extração no Brasil, mas a indústria de transformação...

E os nossos políticos?

Quando não dormem em berço esplêndido, estão fazendo conchavos para obter bons créditos no exterior ou salvar seus mandatos ou ainda buscar foro privilegiado ante aos processos criminais em que figuram como réus por conta da reiterada prática da corrupção e propina em troca de favores legislativos aos investidores internacionais ou ainda do dito "mercado".

O imaculado mercado financeiro até joga alguns dos seus ex-executivos (políticos) como bois de piranha para a platéia (Povo) acreditar na falsa ilusão que a corrupção é a única e grande mazela do País, enquanto isto, o dito “mercado” faz de forma sorrateira a edição diária de medidas provisórias (conhecidas por MP´s), redigidas pelo seu maior executivo, o Presidente da República. Vide o exemplo da MP 2170-36 de 23.08.2001, uma silenciosa, porém voraz pilhagem das contas públicas ou do saqueado povo brasileiro, esvaziando as poupanças de milhares de trabalhadores brasileiros, bem como dos órfãos cofres do governo brasileiro, que já paga a mais alta taxa de juros do planeta aos bancos brasileiros em detrimento de fundamentais setores como: saúde, educação, habitação, Previdência Social e em breve a reforma salarial (a próxima pauta do Governo).

Saiba que a dívida pública corresponde a 70% do PIB brasileiro, enquanto que a também nefasta corrupção corresponde a apenas 2% do PIB brasileiro.

Pergunto: se ambos são vilões, qual tem maior peso e importância??

O imaculado mercado financeiro agora buscar eternizar dívidas públicas e privadas em detrimento do fomento comercial e da economia que produz, gera empregos e renda; impondo taxas incompatíveis com a maioria dos negócios e fazendo sangrar os cofres públicos em detrimento de setores essenciais ao desenvolvimento econômico de forma sustentável e duradouro.

Ainda assim, o pouco, muito pouco que os bancos emprestam a indústria, comércio e consumidores é em taxas de juros proibitivas, incompatíveis com a rentabilidade líquida da maioria dos negócios, e insanas para qualquer cidadão de bem, deixando um legado de absurdos 65% das famílias brasileiras super endividadas e inúmeras empresas em sérias dificuldades financeiras.

Saiba que não há concorrência no mercado financeiro brasileiro, temos apenas 5 grandes bancos de varejo: Itaú, Bradesco, Caixa, Banco do Brasil e Santander. Só a título comparativo nos EUA são 11.000 bancos de varejo.

Pergunto: você se sente valorizado, respeitado ao procurar uma Instituição Financeira como cliente? Ou parece que há uma inversão de valores, parece que eles estão fazendo um favor a um potencial correntista?

Enquanto que aqui um imóvel é financiado por taxas de juros nominais de absurdos 11% ao ano, nos EUA é de apenas 2,5% ao ano, na Europa 3,5% ao ano.

Não há estímulo ou incentivo por parte de um Governo comandado pelo próprio mercado financeiro para o ingresso de bancos estrangeiros no País, fato que poderia trazer concorrência e oxigenar ao asfixiado, centralizado e distorcido mercado financeiro brasileiro.

Veja apenas algumas das recentes passagens meteóricas no Brasil: Bank of Boston, HSBC, Banco Francês e Brasileiro, Citibank, entre tantos outros.

Uma boa e recém-iniciativa foi o Projeto de Lei nº 125/2015 que permitiria a criação das ESC (Empresa Simples de Crédito), justamente para cobrir a lacuna deixada pelo concentrado mercado bancário brasileiro; porém adivinha quem já se pronunciou contra?...o BACEN e seus associados: os poucos e concentrados bancos brasileiros.

Plagiando uma manchete do conceituado jornal norte americano, "The New York Times": "Os juros praticados no Brasil, deixariam qualquer agiota norte americano envergonhado".

Lembre-se, o serviço da dívida interna do Governo Federal (a nossa Caixa de Pandora) consome metade do orçamento da União entre juros e amortizações (50,66% para ser mais exato), restando a outra metade para inúmeros setores, tais como: Saúde, Educação, Habitação, Infra estrutura, Cultura, Assistência Social, Previdência, meio ambiente, ciência e tecnologia, o pesado custeio da máquina pública, etc. Situação esta que se assemelha, por equivalência proporcional com o orçamento de muitas famílias brasileiras super endividadas.

Portanto compreenda, no governo federal não é diferente, com uma pequena diferenciação, quem está com a chave do cofre é justamente o banqueiro (lembre-se: dinheiro público não tem dono), ou seja, literalmente, botaram a raposa para cuidar das galinhas!

Se por um lado às torneiras do financiamento ao fomento comercial ficam a conta gotas, justificado pontualmente pelos bancos brasileiros pelos altos índices de inadimplência, que por sua vez tem grande parcela de responsabilidade pelas proibitivas e incompatíveis taxas de juros cobradas por eles mesmos, o resultado é uma economia que patina, que repete ciclos de breve e pífio crescimento econômico com longos períodos de recessão (senão depressão).

A voraz arrecadação de impostos, que é a única fonte de renda do governo (maior carga tributária mundial que resulta numa astronômica arrecadação, R$3,5 trilhões/anuais para custear além de um Governo inchado, obsoleto e incompetente por natureza, um mercado financeiro que acostumou-se a viver quase que exclusivamente do pagamento do serviço da dívida interna do Governo Federal), equivale-se as drogas sintéticas para os viciados.

Diante deste cenário, só resta a equipe econômica, comprometida com o "mercado", duas alternativas: cortar gastos públicos (PEC 241, reforma trabalhista, previdênciária, salarial) ou aumentar impostos, socializando prejuízos e privatizando os lucros (lucros estes destinados majoritariamente ao setor financeiro, vide Demonstrativos dos Resultados dos bancos brasileiros com os lucros líquidos apurados destes nas últimas 3 décadas no Brasil).

Quero deixar aqui registrado, neste meu artigo, que longe de termos um mercado financeiro, internacionalmente reconhecido, como um dos mais tecnologicamente avançados, trata-se de algo extremamente distorcido, comandados por gestores incompetentes, dependentes de um Estado corruptível, que visa essencialmente socializar prejuízos e privatizar lucros em favor de banqueiros e grandes corporações para financiarem as campanhas de políticos também corruptos e que nada representam o interesse da sociedade, exceto na propaganda eleitoral gratuita ou em suas campanhas, buscando eternizar-se nos cargos eletivos.

Alia-se a tudo isto, a falta de educação da grande maioria da população brasileira, que sequer compreende a dinâmica de todo este processo.

Resta-nos depositar nossa esperança no Divino.

Que Deus nos proteja,

Eduardo Terovydes Jr

É Perito Judicial Contábil e Administrador Judicial há 27 anos no TJ/SP

e-mail: eduardo@pericia-contabil.com

site: www.pericia-contabil.com

2 Comentários

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Parabéns sr. Eduardo, muito bem colocado. Talvez quando chegarmos em 1789 comece a mudar, isto por que estamos retrocendo a uma velocidade alta. continuar lendo