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18 de Agosto de 2018

Crise Econômica: um breve estudo sob a ótica de um contador sobre a causa e efeito

Eduardo Terovydes Junior, Contador
há 2 anos

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta, formará um público tão vil como ela mesma”

Joseph Pulitzer (1847-1911)

Muitos dirão que a culpa da atual crise econômica são os corruptos, vejam: mensalão, petrolão, etc

Mas será que o peso da corrupção no país é a principal causa de nossa crise econômica? Ou será que o interesse dos principais causadores da crise econômica, é querer nos fazer crer que a principal culpa é a corrupção?

As estimativas dos valores da corrupção são sombrias e impressionam. No mundo inteiro, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o custo anual desse crime chega a R$ 2,6 trilhões por ano. No Brasil, apenas o pagamento de propinas na Petrobras e em outras estatais investigadas na Operação Lava Jato soma R$ 20 bilhões, incluindo desvios referentes a contratos com fornecedores e negócios superfaturados.

Mas a corrupção no País não para por aí. Estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) projeta que até 2,3% do nosso Produto Interno Bruto (PIB) são perdidos a cada ano com práticas corruptas, ou seja, cerca de R$ 100 bilhões.

Indústria, comércio, prestadores de serviços, profissionais liberais e trabalhadores são unânimes: não há dinheiro para que a roda da economia retome o crescimento (investimento-emprego-renda-consumo), mas cadê o dinheiro? Sumiu?

Análise técnica, sob a ótica de um contador

Outro dia me perguntaram: “Você que é Perito Judicial Contábil, se fosse auditar as contas do governo saberia nos explicar para onde vai tanto dinheiro (vide impostômetro: http://www.impostometro.com.br/) e porque o país está em crise e literalmente quebrado?

Num pano rápido ao analisarmos o mosaico do orçamento da União em 2015 observamos quais são as prioridades e seus respectivos “pesos” no orçamento:

Prioridade Destinação Valores expressos em reais* Participação no total (%)

01º Encargos Especiais 856.700.000.000,00 41,9%

02º Previdência Social 536.600.000.000,00 26,3%

03º Educação 114.800.000.000,00 5,6%

04º Saúde 112.900.000.000,00 5,5%

05º Assistência Social 74.500.000.000,00 3,6%

06º Trabalho 68.400.000.000,00 3,3%

07º Defesa Nacional 45.300.000.000,00 2,2%

08º Judiciária 32.200.000.000,00 1,58%

09º Reserva de Contigência 30.500.000.000,00 1,5%

10º Administração 30.400.000.000,00 1,49%

11º Agricultura 28.800.000.000,00 1,41%

12º Transporte 25.715.000.000,00 1,26%

13º Segurança Pública 10.749.000.000,00 0,53%

14º Ciência e Tecnologia 10.570.000.000,00 0,52%

15º Urbanismo 9.885.000.000,00 0,48%

16º Legislativa 7.385.000.000,00 0,36%

17º Essencial à Justiça 6.986.000.000,00 0,34%

18º Gestão Ambiental 6.898.000.000,00 0,34%

19º Organização Agrária 5.880.000.000,00 0,29%

20º Comércio e Serviços 5.778.000.000,00 0,28%

21º Desporto e Lazer 3.225.000.000,00 0,16%

22º Relações Exteriores 3.018.000.000,00 0,15%

23º Cultura 2.796.000.000,00 0,14%

24º Saneamento 2.767.000.000,00 0,14%

25º Indústria 2.748.000.000,00 0,13%

26º Energia 2.337.000.000,00 0,11%

27º Direitos da Cidadania 2.203.000.000,00 0,11%

28º Comunicações 1.561.000.000,00 0,08%

29º Habitação 182.850.000,00 0,01%

Total do Orçamento da União 2.042.000.000.000,00 100%

Fonte: FGV/DAPP

Como podem observar, coloquei em destaque a prioridade número 01 do orçamento e que consome mais de 40% do orçamento anual do Governo Federal.

Mas afinal de contas o que são estes “encargos especiais”?

Dos 856 bilhões destinados a esta conta, 441 bilhões são para pagamento do serviço da dívida interna, ainda destes 441 bilhões, 261 bilhões são para pagamentos dos juros, e ainda destes, 176 bilhões destinados finalmente à amortização da dívida.

Voltando ao tema corrupção, pauta recorrente na mídia brasileira, cujo discurso é repetido por boa parte da população brasileira como se fossem papagaios, sendo que para estes a principal causa de todas as mazelas de nossa economia; temos estimados pela FIESP cerca de R$100 bilhões/anuais perdidos com a corrupção, o que nos permite classificá-la na 05ª posição do orçamento da União (entre as verbas destinadas à Saúde e a Assistência Social).

O que podemos concluir disto tudo: se a corrupção tem peso, não menos importante no desfalque identificado no orçamento da União, este número corresponde a apenas 1/3 ou cerca de 31% do que é gasto com a especulação financeira.

Em verdade, nosso grande vilão é a especulação financeira, que deteriora nossas contas públicas e leva nosso país a crises econômicas cíclicas, para não dizer crônicas.

Não estou defendendo um Estado que gasta muito e o pior gasta mal, enxugar a máquina pública, diminuir a intervenção do Estado na economia, torná-la mais eficiente deveriam ser as metas de todo governante responsável e comprometido em melhorar as condições de vida da população.

No gráfico abaixo, podemos visualizar melhor o comportamento da dívida pública brasileira ao longo dos últimos 15 anos:

Numa rápida análise gráfica, constatamos que a dívida interna teve seu pico no final de 2001, ano ainda na gestão do então Sr. Fernando Henrique Cardoso, que foi Presidente até 01 de janeiro de 2003, note que a taxa básica de juros (SELIC) estavam em surreais 24,90% ao ano, e de lá para ca, digo, outubro de 2013, foram reduzidas gradativamente para 8,90% em 09.10.2013, ou seja, podemos concluir, quanto maior a taxa básica de juros (SELIC) maior é a dívida interna pública, que consome atualmente absurdos 42% do orçamento da União ou quase metade de todo o dinheiro arrecadado pelo governo.

Ciranda financeira, vamos todos cirandar...

Cada ponto percentual que o COPOM sobe na taxa SELIC, atualmente em 14,25% ao ano, incrementa em R$9,5 bilhões a dívida anual do governo federal com os banqueiros. Só no ano passado (2015) foram pagos a título de juros da dívida interna cerca de R$316 bilhões dinheiro este oriundo do orçamento da União, em tempo, fábula gasta do suado dinheiro arrecadado dos impostos que pagamos e que não gera necessariamente empregos na mesma proporção de outros programas do governo, apenas alimenta a especulação/ciranda financeira, ou seja, estes R$316 bilhões gastos equivale por exemplo a cerca de 16 vezes o orçamento do Programa Minha Casa, Minha Vida cujo orçamento na União foi de apenas R$19 bilhões em 2015 e que gerou cerca de 1,3 milhões de vagas de emprego.

Se fossemos fazer uma simples conta, utilizando da famosa “regra de 3” teríamos: 19 bilhões (Minha Casa, Minha Vida) está para 1.300.000 empregos gerados, assim como 316 bilhões (Especulação Financeira) estaria para 21 milhões de empregos.

A pergunta que fica é: Será que os bancos e todo o sistema financeiro beneficiado pelos R$316 bilhões destinados do orçamento da União para alimentar a ciranda financeira, gerou 21 milhões de empregos em 2015?

Acredito que não.

Na virada do ano, o Governo Federal ainda emitiu R$90 bilhões em títulos da dívida pública para garantir o pagamento dos juros pornográficos aos bancos, pois diante da recessão imposta pelo aumento dos juros, e que por consequência, derrubou a arrecadação do governo (pois menor atividade econômica = menos impostos arrecadados).

Lembrando que só, Itaú e Bradesco juntos tiveram lucro líquido de aproximadamente R$30 bilhões em 2015, pleno ano de grave crise econômica no país, onde todos segmentos perderam: indústria, comércio, prestadores de serviços e trabalhadores, mas e os bancos? Perderam, ganharam?

O interessante é que a imprensa não destaca este fato anômalo em nossa economia (política econômica do governo privilegiando o setor financeiro em detrimento ao setor produtivo por várias décadas), fala-se muito da crise, desemprego aumentando, comércio patinando, indústria demitindo, família endividadas; porém não há na pauta destes mesmos jornais uma simples menção que ao mesmo tempo que toda sociedade brasileira perde com a crise, há um único mercado ganhando e batendo sucessivos recordes de lucro em seus balanços anuais; os bancos e o mercado financeiro.

Quando assisto ao principal jornal do país e formador de opinião de boa parcela da população brasileira, observo em seu intervalo comercial que temos entre seus anunciantes e patrocinadores uma financeira que empresta dinheiro a “modestos” juros de 22% ao mês direcionados a clientes negativados nos órgãos de crédito.

A pergunta que fica é: Será que sua redação, bem como sua pauta será isenta?

Ao mesmo tempo, não vejo anúncio de Instituições Financeiras interessadas em divulgar o financiamento imobiliário, cujas taxas giram em torno de 9% ao ano. Por que será?

Lembrando que, o financiamento imobiliário, incrementa o segmento que mais gera vagas de emprego no curto prazo e estimula toda uma cadeia produtiva (indústria extração e transformação: cimento, aço, areia, pedra, blocos, cerâmica, plástica, elétrico, ferragens, etc, etc)

Essa massa de trabalhadores, uma vez, empregados e com renda, poderão partir para o mercado de consumo, adquirindo bens e serviços e estimulando toda a cadeia produtiva.

Porém, se põe por um minuto no lugar do banqueiro:

ROI – Retorno sobre o investimento

Taxa anual de juros Garantia do empréstimo Lucro

Cartão de crédito 500% ao ano Sem garantia R$5.000,00

Empréstimo

Consignado 34,49% ao ano 100% garantido R$ 344,90

Tesouro Nacional 14,25% ao ano 100% garantido R$1.425,00

Imobiliário 9% ao ano 100% garantido R$ 90,00

Discurso x Prática

Note que curiosamente o governo vem se empenhando para ressuscitar a CPMF estima-se que irá gerar entre 80 e 90 bilhões na arrecadação anual.

Faltou ao governo exatos 90 bilhões na virada do ano X arrecadação estimada da CPMF 90 bilhões!

Nossos governantes, como testas de ferro dos banqueiros, agem como fantoches, defendendo aquilo que só atende ao interesse do chamado: “MERCADO”.

Este sim é o maior programa "social" do governo: “O Bolsa Banqueiro”.

Se você está se sentindo mais pobre a cada dia, tenha certeza que isto não é uma impressão, mas um fato.

Há um programa do governo em andamento que é o empobrecimento da classe média e pobre, um retrocesso ao avanço obtido na última década de nosso país, os bancos vivendo da renda proporcionada pelo financiamento de sua máquina.

Obviamente é muito mais fácil administrar apenas um financiado, o governo, que dispõe da “caneta” para cobrar cada vez mais impostos e da máquina de emitir papel moeda, do que administrar milhões de brasileiros.

Lamento informar, mas se você ainda não percebeu, os bancos não precisam mais de você ou de seu dinheiro, quando você pedi uma renegociação ou uma ampliação do seu financiamento, note que há um discurso quase que ensaiado entre os 5 bancos: “ NÃO!, afinal de contas, minha receita já está garantida, o governo provém”; tanto é verdade, que há um programa em andamento nos principais bancos varejistas brasileiros que é o fechamento gradual de agências físicas e a substituição pelo atendimento virtual. Os bancos sequer querem receber pagamento de contas de consumo, obrigaram você a usar o “internet banking” ou delegaram esta função as lotéricas.

Nos EUA temos mais de 11.000 bancos varejistas em mercado de livre concorrência, no Brasil a absurda centralização, espelhada em apenas 5 grandes bancos varejistas (Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil e Caixa), não é difícil de se imaginar que não há concorrência e quando um novo banco estrangeiro resolve se aventurar em terras tupiniquim, logo é absorvido ou incorporado por um destes 5 grandes bancos varejistas, vide: HSBC pelo BRADESCO, BOSTON pelo ITAÚ, etc

Esta falta de concorrência com apoio do governo federal gerou um fato anômalo em nossa economia que é as taxas de juros surreais, veja o gráfico abaixo:

Crise Econmica um breve estudo sob a tica de um contador sobre a causa e efeito

Manchete no respeitado jornal New York Times:

"Os juros praticados pelos bancos no Brasil, deixaria qualquer agiota americano envergonhado".

Gostaria, por fim, de sugerir a alteração do slogam do governo federal.

De: Brasil, Pátria Educadora

Para: Brasil, Pátria da Agiotagem.

Acorda Brasil!

2 Comentários

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Gostaria, com licença do autor, de comentar os parágrafos a seguir, que achei bem relevantes:

"Em verdade, nosso grande vilão é a especulação financeira, que deteriora nossas contas públicas e leva nosso país a crises econômicas cíclicas, para não dizer crônicas.

Não estou defendendo um Estado que gasta muito e o pior gasta mal, enxugar a máquina pública, diminuir a intervenção do Estado na economia, torná-la mais eficiente deveriam ser as metas de todo governante responsável e comprometido em melhorar as condições de vida da população."

Apesar de eu também achar que deveríamos mudar nosso perfil de gastos, tirando-o principalmente de juros para outras questões, não podemos simplesmente depois de termos nos endividado resolver dar calote nos credores (não que isto tenha sido sugerido no texto).
Se há uma dívida enorme (e há) esta dívida não nos foi empurrada goela abaixo por credores malvados. Esta dívida foi contratada por um governo incompetente (ou vários governos) que priorizam gasto corrente sem se preocupar se tem recursos para tanto.
Parêntese: quem não conhece a pérola proferida pela presidente, "Gasto corrente é vida"...?
Parte substancial da dívida está na mão de fundos de pensão (de trabalhadores), de pessoas físicas que resolveram comprar no tesouro direto...
Mas o perfil do credor nem é a questão, já que um dos fundamentos da respeitabilidade de países e atração de investidores é que os devedores honrem os compromissos que assumem.
As tentativas de burlar esta regra (como o calote que o Brasil deu na década de 80 ou que a Argentina deu alguns anos depois) sempre resultaram em enormes prejuízos no longo prazo.
O que precisamos urgente é o que está no segundo parágrafo, de governo responsável que gaste em função de quanto arrecada e não faça simplesmente a dívida aumentar de forma descontrolada.
Quanto à taxa de juros, também devemos buscar baixá-la, mas não podemos simplesmente fazer isso ignorando seus efeitos sobre a inflação, que, mais uma vez, aumentou em demasia pela atuação incompetente dos últimos governos.
...
Mas diante de tudo que é necessário fazer, impõem-se uma pergunta que sempre permeia este debate (principalmente na América Latina): como eleger governos responsáveis se o que a população de fato gosta são governos gastadores?
Quando Lula tinha mais de 80% de aprovação alguém queria saber em que bases estava fundada nossa economia? Alguém queria saber de onde estava vindo o dinheiro? Alguém queria saber se haveria reflexos no futuro? Não. Então eu acho que a responsabilidade do governo (na verdade a irresponsabilidade do governo) muito tem a ver com a irresponsabilidade de seus eleitores (ou talvez a sua ignorância econômica). continuar lendo

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